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Eric Carlson: luxo e sensibilidade

O arquiteto norte americano Eric Carlson, fundador da Carbondale, escritório francês de referência mundial em projetos de luxo, é responsável por grandes obras em todo o mundo.

Por Maria Cecilia Maciel

 

O arquiteto norte americano Eric Carlson, fundador da Carbondale, escritório francês de referência mundial em projetos de luxo, é responsável por grandes obras em todo o mundo. Responsável por co-fundar e dirigir o Departamento de Arquitetura da Louis Vuitton, o arquiteto Eric Carlson também colaborou com os escritórios de arquitetura de Rem Koolhaas, Oscar Tusquets e Mark Mack. Eric coleciona uma grande variedade de arquitetura de interiores e projetos notáveis no setor de luxo por toda a Europa, além da América do Norte e Sul, Ásia e Austrália. Entre os destaques, um projeto emblemático para Louis Vuitton em Tóquio e Nagoya, para Longchamp em Hong Kong e Nova York, para Tag Heuer Londres, Sydney e Las Vegas, o Headquarers para Escada em Munique, o 360 ° Watch Museum para Tag Heuer, na Suíça, e um grande número de projetos residenciais.

 

Aqui, à frente de projetos como o Shopping JK Iguatemi e a revitalização do Shopping Iguatemi, ele realizou recentemente a palestra ‘Em busca do Excepcional - Luxo Relativo versus Luxo Absoluto’, na primeira edição do Wired Festival Brasil 2016, no Rio de Janeiro. Durante o evento, Carlson abordou a maneira como o produto é apresentado ao consumidor e mostrou exemplos de projetos de arquitetura e design customizados que podem realçar o caráter excepcional de lojas, restaurantes e residências de luxo, assim como de museus, escritórios e espaços públicos.

Louis VuittonChamps Elysées

“O mercado de luxo tem um papel crítico em incitar as fronteiras de transformação do conceito, devido à sua compreensão aguda da importância da imagem, do branding e da qualidade requisitada pelo setor. E, a partir disso, o nosso desafio é apresentar ao público a importância deste nicho e suas possibilidades”, afirmou o arquiteto, que em 2010 recebeu o prêmio de "Talento de la Rarete" pelo Centro de luxo e criação em Paris e "A construção mais bonita no Metal" em 2006, pelo o átrio da Louis Vuitton na Champs Elysées Building.

 

 

Espelho Digital Suspenso: Paris

A Obra Prima aproveitou sua estada no Brasil para conversar com o profissional sobre suas impressões da arquitetura atual, englobando percepções sensoriais, sustentabilidade e luxo.

Obra Prima: Como colocou o arquiteto americano, Steve Holl, "Mais plenamente que o resto das outras formas artísticas, a arquitetura capta a imediatez de nossas percepções sensoriais. A passagem do tempo, da luz, da sombra e da transparência; os fenômenos cromáticos, a textura, o material e os detalhes…, tudo isso participa na experiência total da arquitetura". A arquitetura sempre transcendeu seu caráter físico, de refúgio, mas ultimamente o conceito "Arquitetura Sensorial" está bastante em evidência. É só uma questão de comunicação ou mudou realmente os anseios das pessoas em relação ao espaço privado e público?

Eric Carlson: A consequente percepção sensorial que a Arquitetura oferece vai além da simples detecção de estímulos como sons, cores, texturas... A arquitetura pensante orquestra esses estímulos para provocar experiências significativas. Arquitetura não é "comunicação", assim como o telefone não é "comunicação", porém nas mãos certas é um dispositivo poderoso capaz de envolver visitantes e/ou habitantes em suas sensações e sentimentos, incluindo os desejos. Isto pode ser aplicado tanto para o público quanto para o privado. Espaços públicos, como uma praça urbana, e espaços privados, como um quarto, podem potencialmente envolver os indivíduos que os habitam. A questão importante é: o arquiteto considera as possibilidades e as infundi em seu projeto?

Obra Prima: A conscientização de um mundo que pode ser finito trouxe grande interesse no construir de forma sustentável. Os projetos verdes são mais sensíveis aos sentidos?

Eric Carlson: Esta é uma pergunta muito interessante, pois fornece um exemplo que distingui a relação entre arquitetura e percepção. Nos últimos tempos, muitas pessoas sentem muito fortemente sobre a destruição e esgotamento dos recursos do mundo e há muitos arquitetos que se concentraram nesses sentimentos. Alguns projetos "sustentáveis" são simplesmente pintados de verde ou têm plantas em volta da fachada. Esses tipos de propostas não têm nenhum valor geológico "sustentável" real, mas não obstante, eles estão convencendo muitos fanáticos interessados. Por outro lado, existem projetos que têm sofisticados sistemas de consumo de energia eficiente ou projetos qualitativos e sustentáveis que perduram no tempo, mas não comunicam exteriormente o seu valor ambiental real. Assim, para responder à pergunta, geralmente as pessoas são mais sensíveis aos projetos de "cor verde" do que aos projetos "praticamente verdes". O domínio da arquitetura é compreender esse fenômeno e alcançar tanto a percepção quanto a realidade. Isso é o que fazemos.

Obra Prima: Como a arquitetura sensorial se aplica ao seu conceito: ‘Em busca do Excepcional - Luxo Relativo versus Luxo Absoluto’?

Eric Carlson: Para mim, "luxo relativo" significa customizar nossos projetos para corresponder a cada um de nossos clientes. Ao invés de simplesmente aplicar soluções típicas ou copiar o mesmo estilo formal para cada projeto, em CARBONDALE buscamos as qualidades únicas, características e circunstâncias que inspiram projetos excepcionais. Para mim o sucesso está em compreender como os nossos edifícios e espaços transmitem a todos os seus sentidos.

Obra Prima: Como ela pode maximizar os resultados positivos de seus efeitos nos espaços comerciais, públicos, hospitais e residenciais?  Um gostoso café, por exemplo, pode aumentar o número de clientes numa lavanderia? E uma boa decoração de interiores pode substituir uma má arquitetura, lançando mão de recursos modernos de iluminação, cores, texturas, aromas, paisagismo, automação...?

Eric Carson: Os projetos que tocam os sentidos não enganam as pessoas para que sintam as coisas, elas apenas captam seu potencial. Projetos arquitetônicos impensados simplesmente não permitem que as pessoas se conectem a eles emocionalmente ou intelectualmente, são desconsiderados. Para mim, o "luxo" em nossa arquitetura não é sobre material raro e caro, ele vem de nossa busca por uma compreensão e expressão das verdades subjacentes que nos permitem criar uma arquitetura pensativa e única.

Obra Prima: Como a arquitetura sensorial pode ser aplicada aos portadores de deficiência (acessibilidade, sistemas táteis, braile, linguagem dos mudos...) além da forma legalmente necessária, para trazer de fato um plus na experiência dessas pessoas?

Eric Carlson: Como indivíduos, somos TODOS diferentes uns dos outros em graus variados e, para alguns, essas diferenças podem ser consideradas deficiências. Penso nelas mais como características e oportunidades que criam algo personalizado e original.

Obra Prima: É mais fácil projetar para o bem estar nos grandes centros ou no isolamento das montanhas, do mar? Ou são ideias diferentes?

Eric Carlson: Projetar ideias excepcionais é sempre difícil, pois tudo deve ser impecável. Em todo o globo temos projetado espaço público, construção urbana, lojas de luxo flagship, museus, restaurantes, casa de campo e móveis. Existem grandes diferenças em escala, tipos e locais, mas eles são todos complexos, porque as pessoas que os usam e os percebem são complexas. Nossos projetos concluídos parecem puros e descomplicados, mas o processo para chegar lá é árduo e intenso..., mas gratificante.

Obra Prima: O que a Arquitetura significa para você?

Eric Carlson: Pessoalmente, o que mais me desagrada é ser categorizado ou limitado. Eu gosto de ser capaz de mudar e mudar o que faço; o arquiteto tem que ser criativo, prático, extravagante ou eficiente, técnico, compreensivo, decisivo, intenso, subjetivo, objetivo, a lista é vasta. A arquitetura é uma das raras profissões que abraça esse tipo de multiplicidade.

 

Tre Bicchieri - São Paulo