VOCÊ ESTÁ EM >> SÊNIOR: UM FOCO PROMISSOR PARA A CONSTRUÇÃO CIVIL

Sênior: um foco promissor para a construção civil

Profissionais da construção civil voltam os olhos às diversas formas de moradia para cidadãos na maturidade e pós-maturidade.

Cora Residencial Campo Belo

 

Nos últimos 10 anos, o Brasil ganhou 8,5 milhões de cidadãos acima dos 60 anos. Hoje são 26 milhões de pessoas nesta faixa de idade. Em 2007 eram 17 milhões e, em 2027, esse índice dobrará, chegando aos 37 milhões, de acordo com projeções do IBGE. 

De olho nesse perfil, em novembro do ano passado aconteceu o 1º Fórum de Moradia para a Longevidade, organizada pelo jornal Estado em parceria com o Sindicato da Habitação (Secovi) e a Aging Free Fair, feira sobre o mercado para sênior, com o objetivo de apresentar as diversas formas de moradia na maturidade e pós-maturidade. Profissionais que se dedicam a pensar, planejar e a construir habitações para esse público compartilharam soluções e discutiram alternativas para assegurar qualidade de vida e bem-estar nessa fase da vida.

Pioneer Valley Cohousing - Fitch Architecture & Community Design

 

Entre os tópicos apresentados, a arquiteta Laura Fitch, da Fitch Architecture & Community Design, escritório americano reconhecido por uma ampla experiência em coabitação, e na vanguarda do design verde e sustentável, palestrou sobre o cohousing (vila comunitária que reúne espaços de compartilhamento de experiências). Sua empresa já implantou 30 empreendimentos com este formato nos Estados Unidos e Europa. O que mais impressionou a profissional no Fórum foi a informação sobre o problema global da onda de envelhecimento das populações que, segundo ela, parece tsunami. “Sem exceção, todas as nações ‘desenvolvidas’ e ‘em desenvolvimento’ verão uma mudança de cerca de 10% dos cidadãos com mais de 60 anos de idade para mais de 30% em apenas algumas décadas. As nações subdesenvolvidas seguirão algumas décadas depois, devido ao aumento da longevidade e à redução das taxas de nascimento infantil. Não há país que esteja preparado para abrigar e fornecer assistência médica para essa rápida mudança demográfica”, acredita Laura.

Na mesma linha, Sérgio Mühlen, professor da Universidade Estadual de Campinas apresentou sua Vila ConViver, primeiro projeto cohousing do Brasil, direcionado a docentes e funcionários da Unicamp com mais de 50 anos. Apesar do projeto estar previsto para finalizar em 2020, as vagas já esgotaram. Mas a ideia é reproduzir o modelo.

Cora Residencial Higienópolis

Sérgio Muhlen participou do debate "Moradias para Seniors no Brasil” com Caio Calfat (Secovi-SP) e Valter Pinho, diretor de expansão e obras da Brazil Senior Living/Cora Residencial – empreendimento composto por quatro unidades, bem localizadas na cidade de São Paulo (Jardins, Ipiranga, Campo Belo, Higienópolis, Tatuapé, Villa Lobos), como infraestrutura desenvolvida especialmente para o bem-estar dos idosos, que oferece serviços de médicos, enfermeiros, nutricionistas e profissionais da saúde bem preparados, além de espaços amplos e acolhedores para receber a família do morador a qualquer hora do dia.

Em contrapartida, os empreendimentos focados nos idosos de baixa renda, no Brasil, ainda são raros e o setor carece de investimentos da iniciativa pública e privada. Os secretários estadual e municipal de Habitação de SP, Rodrigo Garcia e Fernando Chucre, e o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho falaram sobre parcerias público privadas que podem minimizar os custos de viabilização de projetos.

Vila dos Idosos, Pari - São Paulo

 

A Vila dos Idosos, em São Paulo, é dos raros projetos para este seguimento. Localizada no bairro do Pari, são 8 mil metros quadrados de área construída, com 175 moradores, vivendo em 145 apartamentos – 90 quitinetes e 55 apartamentos de um quarto, com sala, cozinha e banheiro. Trata-se do primeiro projeto de locação social para idosos, bancado pela prefeitura de São Paulo. Construído exclusivamente para pessoas com mais de 60 anos, o morador paga 10% de seu rendimento, seja quanto for, e um condomínio de mais 35 reais para viver na Vila. O idoso que consegue a vaga – através de inscrição no COHAB – ganha o usufruto, e pode viver a vida inteira ali. Quando falecer, sua vaga passa para outro. O condomínio conta com seguranças, e o valor cobrado inclui manutenção e serviços.

O modelo Cidade Madura, na Paraíba, também é outro bom e isolado exemplo. O Governo do Estado investiu mais de R$ 18 milhões na construção dos quatro condomínios Cidade Madura para proporcionar condições mais dignas de moradia aos idosos daquele estado. “É um espaço de convergência social, com ambientes específicos com tudo o que precisam”, pontuou o governador, Ricardo Coutinho, na inauguração do residencial entregue na cidade de Guarabira. O empreendimento conta com instalação de placas de energia solar fotovoltaica, que diminuem o custo da energia em cerca de 80%, e uma sala com computadores para que os idosos tenham aulas de informática. O local possui cerca de um hectare de unidades habitacionais compostas por terraço, sala, banheiro, cozinha e área de serviço. Todas as moradias são adaptadas para as necessidades do idoso, contando com itens como barras de apoio no banheiro e rampas de acesso conforme as Normas de Acessibilidade. Há também o Centro de Vivência, Núcleo de Assistência à Saúde, um bloco destinado à guarita e administração do condomínio, praça, redário, equipamentos para ginástica, horta integrada à parte urbanística, entre outros itens.

 

Condomínio Cidade Madura, João Pessoa - Paraíba

 

Edgar Werblowsky, CEO da Aging Free, mostrou algumas modalidades que são realidade nos Estados Unidos, como os Norcs (em inglês, Natural Occurring Retirement Communities), comunidades de terceira idade que não foram construídas propositalmente para os idosos, mas evoluíram de forma natural devido ao envelhecimento dos adultos naqueles locais. Hoje, essa faixa acima de 60 representa 60% da ocupação e vão ganhando a cada dia mais apoio de moradores, comércio e serviço locais.

Laura Fitch acredita que é possível ajudar coletivamente a reduzir parte da pressão sobre os governos e saúde, enquanto se esforçam para resolver esse problema global de envelhecimento das populações. “E, no processo, podemos influenciar o design dessas soluções direcionadas ao governo e profissionais para que sejam mais humanas, para que mais de nós tenhamos uma comunidade de apoio e engajamento à nossa porta, em vez de isolamento à medida que envelhecemos”, conclui a arquiteta.